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Área detetada e área ardida não são a mesma coisa

O número em hectares de um mapa por satélite sobrestima sempre a área realmente calcinada. Explicamos porque acontece, quanto se pode desviar e onde consultar os números oficiais.

5 min de leituraAtualizado a 13 de agosto de 2026

O problema do píxel inteiro

Um píxel do sensor VIIRS cobre 375 metros de lado, ou seja, pouco mais de 14 hectares de terreno. O algoritmo de deteção marca esse píxel como ativo se dentro dele houver energia térmica anómala suficiente, mas não consegue dizer que fração do píxel está realmente a arder.

A consequência é direta: um fogo que ocupe meio hectare dentro desse quadrado faz com que se contabilizem os 14 hectares completos. Se somares a área de todos os píxeis ativos, obténs um número que sobrestima sistematicamente a área afetada, e o erro é proporcionalmente maior quanto mais pequenos e dispersos forem os focos.

Este mapa mostra esse número sob a etiqueta «área detetada» precisamente para não a confundir com a área ardida. É um indicador útil da extensão da frente ativa, não uma medição de dano.

O problema inverso: o que o satélite não conta

Há um segundo efeito que atua em direção contrária e que muitas vezes passa despercebido. O satélite marca os píxeis onde havia chama ativa no momento exato da passagem, não todo o terreno que o incêndio já percorreu.

Num grande incêndio com uma frente de vários quilómetros, a zona interior já ardida está fria e não gera qualquer deteção. Isso significa que a área detetada pode ficar muito abaixo da área realmente afetada quando o incêndio já está ativo há dias.

Os dois efeitos — sobrestimação por píxel inteiro, subestimação por perímetro não ativo — não se compensam de forma previsível. Dependem do tipo de incêndio, da sua velocidade e do momento da passagem. Por isso nenhum número derivado de deteções térmicas deve ser apresentado como área ardida.

Onde consultar a área ardida real

A área ardida mede-se depois, sobre imagem de satélite ótica, delimitando a cicatriz do incêndio. O serviço europeu que faz este trabalho de forma sistemática é a Copernicus EFFIS, cujos perímetros de área ardida podes ativar como camada neste mapa.

Para números oficiais e consolidados, em Portugal o organismo responsável é o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), que publica relatórios provisórios durante a época e definitivos no fecho do ano. Em Espanha a competência é de cada comunidade autónoma, com o MITECO a publicar a estatística estatal agregada.

A diferença temporal é importante: os números oficiais demoram semanas ou meses a consolidar-se, enquanto as deteções térmicas estão disponíveis em horas. São ferramentas complementares, não alternativas.

Perguntas frequentes

Quanto se pode desviar o número?

Depende completamente do cenário. Num dia de muitos focos pequenos e dispersos, a área detetada pode multiplicar por cinco ou mais a área realmente ardida. Num grande incêndio já avançado, pode ficar abaixo. Não há um fator de correção aplicável de forma geral.

Porque mostram então esse número?

Porque é um indicador útil da extensão da frente ativa e da sua evolução entre passagens, desde que se entenda o que mede. Escondê-la não ajudaria; explicá-la sim. Por isso aparece etiquetada como área detetada e com uma nota esclarecedora junto ao número.

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